Ações

Retratos do Cárcere – Vítima do amor espera justiça divina

28 março, 2016
Sem Título-2_90dpi

Por Glória Branco

 

Desde pequena Neuza* já sonhava em encontrar o “príncipe encantado”, o homem que a faria feliz acima de qualquer circunstância e que a salvaria de uma vida sem rumo e sem graça. Não esperava desse príncipe uma beleza física espetacular, mas uma personalidade gentil e calma, um caráter forte de homem másculo e viril, porém tolerante e amável.

As fantasias juvenis libertavam ao menos a mente de Neuza da condição asfixiante de sua própria casa, aonde cresceu vendo a mãe sofrer nas mãos de seu pai alcoólatra e violento. Com medo dos rompantes agressivos do pai, Neuza e seus irmãos quase não abriam a boca nem para chorar quando via a mãe ser espancada sem misericórdia.

Adulta, Neuza foi morar com um grupo de amigas em uma pensão no centro de São Paulo. A vida não era fácil, mas Neuza trabalhava e conseguia com sacrifico pagar suas despesas. Da família não fazia questão de contato, principalmente depois que a mãe morreu vítima de um câncer. O pai se acabou na bebida e os irmãos havia cada um tomado um rumo diferente. Para Neuza sua família era aquela que conheceu na igreja, depois que se batizou sua vida era do trabalho para casa, da casa para igreja.

Um dia chegou um rapaz novo na igreja, de boa aparência e com uma história parecida com a sua: um pai alcoólatra, uma mãe sofrida, irmãos com quem não falava mais. Neuza sentiu uma empatia instantânea por José e logo os dois estavam sempre juntos, do trabalho para casa, da casa para igreja. Parecia que o sonho de Neuza estava a tornar-se realidade, o “principie encantado existe e veio ao meu encontro”. Quando José falou em casamento a jovem de 24 anos não pensou duas vezes ao dizer sim.

Somente durante o cumprimento de sua pena numa penitenciaria da capital que Neuza parou para pensar em suas escolhas, lembrou que de tão apaixonada não se lembrou de conhecer melhor o homem que a pediu em casamento. Mergulhou de cabeça na paixão, deixando suas carências dar às cartas de seu destino. Nunca passou por sua cabeça, quando sonhava com um homem que a amaria incondicionalmente, que em sua história carregaria o peso de um crime de homicídio em legítima defesa.

Neuza não é uma mulher com cara de criminosa (como se o crime tivesse cara), parece mesmo uma dona de casa. E foi no dia a dia da casa, nos cuidados com a família, que Neuza viu a trajetória de sua mãe se repetir em si. José não era mais o príncipe do
inicio da relação. Neuza tem incontáveis marcas de agressões físicas sofridas nos nove anos que passou casada com ele, mais as inúmeras cicatrizes emocionais.

Na prisão ela me conta sobre os abusos entre lágrimas, me mostra uma marca na cabeça deixada pelo ferro que José usou para surrá-la. Relembra o desespero que sentiu quando em outra ocasião seu ex-marido bêbado e drogado lhe deu um banho de álcool para incendiá-la. Foi por sorte que conseguiu correr e fugir do mísero homem.

Quando Neuza procurou pela justiça para afastar o marido de seu caminho, acreditou que tudo ficaria bem. E ficou por alguns meses, Neuza sentia um alívio por não sentir mais medo e se arriscou a iniciar um novo relacionamento. Não tinha notícias de José há um tempo e pensou estar salva do drama de um casamento deplorável.

Entretanto, numa tarde de domingo José reapareceu bêbado e drogado como sempre. Neuza pediu que ele fosse embora, disse que não poderia estar em sua casa. Mas José chorava e pedia à mulher que deixasse ao menos ele tomar um banho, porque estava a dias dormindo na rua. Neuza pensou em não deixá-lo entrar, mas por um instante teve pena do marido. Assim que abriu a porta José foi pra cima dela esbofeteando sua cara, lhe chamou de vagabunda, puxou seus cabelos, deu um soco em seu olho direito.

Neuza tenta se defender de alguma forma, mas José era forte e quando estava nervoso ficava mais forte ainda. Então pediu pelo amor de Deus, que ele parasse. Mas José disse que se não fosse com ele, ela não ficaria com mais ninguém. Ela sabia que ia
morrer nas mãos de José senão fizesse nada. Quando ele voltou a levantar a mão para lhe esmurrar, Neuza pegou uma faca que estava na mesa e sem hesitar enfiou a arma em seu pescoço.

José chegou a ser levado ao hospital, mas por conta do grave ferimento e do seu estado embriagado não resistiu e morreu. Agora Neuza aguarda na justiça o resultado de seu processo, em primeira instância foi condenada a cinco anos e seis meses de detenção, mas recorreu alegando legítima defesa. O advogado acredita que pelo histórico de agressões, Neuza saia logo em liberdade.

Com um olhar triste de quem já apanhou muito do destino, Neuza espera recomeçar a vida com mais sorte e bênçãos. “Sei que Deus não me abandonou, suportei tudo que já vivi e tenho suportado a prisão também. Espero pela justiça divina na minha vida”.

*Nome fictício para preservar a integridade da entrevistada. Imagens aleatórias da ação, não sendo necessariamente da mesma.

 

You Might Also Like

No Comments

Leave a Reply