Ações, Vivências Fotográficas

Retratos do cárcere 2 – *Maria Alice

15 julho, 2016
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Não é fácil ser mulher no sistema carcerário brasileiro. Com 37.380 mulheres presas, o país tem a quinta maior população carcerária feminina do mundo, ficando atrás de Estados Unidos (205.400 presas), China (103.766), Rússia (53.304) e Tailândia (44.751). As mulheres correspondem a 6,4% da população carcerária no Brasil e teve um aumento de 567,4%, de 2000 a 2014. De acordo com o relatório World Female Imprisonment List, produzido pela Universidade de Londres, existem mais de 700 mil mulheres presas no mundo hoje.

Faz parte das estimativas prisionais Maria Alice, 24 anos dos quais quatro no encarceramento brasileiro. Sua cela é dividida com mais duas outras presas, falta privacidade, conforto, discrição, exclusividade. Falta quase tudo que Maria Alice tinha em sua vida de garota de classe média nascida na metrópole São Paulo. Mas ela está consciente que suas escolhas foram equivocadas desde o começo, quando na adolescência fez amizade com algumas pessoas que não tinha um compromisso moral com a sociedade. Para ela a vida era uma aventura que deve ser vivida no momento, sem pensar muito no futuro ou no amanhã. Cada dia era uma chance de se divertir e ter prazer sem limites.

Maria Alice sempre teve uma personalidade autêntica, foi assim que assumiu aos 15 anos sua homossexualidade. Nunca teve problemas para assumir suas escolhas sexuais e achava até prazeroso o fato de chocar seus pais ao levar meninas para sua casa, mas seu ímpeto incontrolável a levou além de onde sua imaginação poderia prever. Aos 18 anos, Maria Alice foi convidada para uma festa de um amigo que, de um dia para o outro, comprou um belo apartamento num dos bairros mais caros de São Paulo, Moema. Ela sabia que lá teria bebida e drogas a vontade, então aceitou o convite sem pestanejar. Gostou do estilo de vida que o amigo levava e quis saber mais sobre o “trabalho” no qual estava envolvido.

Logo estava fazendo pequenos serviços para o amigo, ligando para algumas pessoas e fazendo entregas para outros. Nessa época, se apaixonou por uma mulher mais velha que já tinha passado pela prisão por pequenos furtos e envolvimento com drogas, foi o que faltava para Maria Alice entrar definitivamente na criminalidade. Sua grande oportunidade no crime havia chegou no convite para participar de um roubo a um carro forte. Maria Alice aceitou e diz que nunca sentiu tanto medo como naquele dia, se algo saísse fora do planejado tudo poderia dar errado e isso significava cana, xilindró. Naquele dia o roubo foi um sucesso e Maria Alice sentiu na pele o deleitamento de romper com as leis e não ser punida por isso. Seu único desejo era roubar novamente porque daquele dia em diante cometer um crime pareceu muito fácil.

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Em sua casa o clima era pesado, seus pais desconfiavam da conduta da filha porque estava sempre com algo novo e as cobranças começam a incomodar demais, levando Maria Alice há passar mais tempo na casa da namorada. Lá ela também tinha liberdade para ser quem queria e não lhe faltava compreensão e encorajamento para levar a vida que havia escolhido. Um novo convite para outro roubo chegou depois de alguns meses, Maria Alice confirmou sua participação. Dessa vez, a ação seria mais ousada, pois o roubo seria a joalheria caríssima de um shopping de São Paulo. As joias seriam levadas para outro país e vendidas para que o lucro fosse dividido entre os integrantes do grupo. Era uma oportunidade de ficar rica facilmente e Maria Alice não perderia a chance de viver a adrenalina dessa experiência.

Pergunto se em algum momento ela pensou no que poderia acontecer se a polícia a pegasse ou se sentiu remorso por cometer um crime dessa proporção, mas ela me diz que já tinha perdido o senso moral que determinava suas escolhas havia muito tempo. Novamente o roubo foi um sucesso, mas algumas semanas depois a polícia chegou ao grupo e os integrantes do roubo foram presos, excluindo o líder que estava foragido.  Na penitenciaria feminina, Maria Alice teve tempo para pensar em seus atos, lembrou-se dos conselhos da mãe para que mudasse de vida, recordou as muitas vezes que seus pais alertaram para o caminho que sua vida estava tomando. A namorada nunca foi visitá-la nesses quatro anos, são seus familiares que todos os finais de semana aparecem no presídio ou deixam o jumbo* durante a semana.

“Acho que agora aprendi a lição, tenho que mudar de vida e ouvir mais minha mãe. Saindo daqui não quero mais saber de biqueira* nem de 157*, quero ser uma mina sangue bom*”. Termino meu papo com Maria Alice, enquanto ela volta para sua cela impessoal carregando sua bagagem de vida eu admiro o sol de inverno que bate no jardim do presídio e lembro que ele nasce para todos, prometendo novas oportunidades dia a dia. Que seja assim com Maria Alice também.

 

*Nome fictício

*Jumbo: cesta de alimentos dos presos autorizados pela direção do presídio;

*Biqueira: nome dado ao local onde são vendidos todos os gêneros de drogas;

*157: Artigo 157 que corresponde ao crime de roubo;

*Mina sangue bom: Aquela que é correta.

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