Ações, Vivências Fotográficas

Retratos do cárcere 2 – Mais uma história real

1 julho, 2016
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Capão Redondo, 21h. 2009.

Enquanto assistia à novela, Fernanda* descansava as pernas para o alto depois de um dia intenso de trabalho. Acostumada a ficar quase seis horas de pé todos os dias, era um alívio chegar em casa e relaxar deitada no sofá. Era tudo que ela mais queria ao final do dia. Fernanda trabalhava em uma lanchonete, um corre corre cotidiano de um lado ao outro para atender bem a todos os agitados clientes. São Paulo sabe como é até almoçar é às pressas.

Foi um barulho na porta que tirou Fernanda de seu descanso. Quem estava chegando? Dos três filhos o único que estava por perto, morava na casa dos fundos e, por influência da esposa, mal falava com a mãe direito… Então, não podia ser ele.

Foi quando levantou e chegou à cozinha que viu Nestor, o ex-companheiro agressivo e colérico. Dos seis anos que viveu com ele, Fernanda ainda guardava algumas cicatrizes que Nestor deixou em seu corpo. Batia na mulher com o que via na frente e na cabeça dele não faltavam motivos para espancá-la. Nestor tinha ciúmes doentio de Fernanda e via maldade aonde não existia.

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Nem seus 50 anos aplacavam a ira de Nestor, a raiva que ele sentia era a carne de Fernanda que sossegava.  Por não aguentar mais aquela rotina, mandou o homem embora e ele saiu cheio de ódio. Um mês depois ele estava bem na frente de Fernanda, de pé em sua cozinha.

Ela só teve tempo de perguntar “o que você está fazendo aqui?”, Nestor levantou a mão esquerda e se lançou em direção da mulher, enquanto que na direita trazia uma faca.

“Você vai morrer Fernanda”. Foi tudo tão rápido que ela só lembra de segurar forte a mão direita de Nestor e a faca cair. Depois foi tanta coisa que sentiu, parece até que o ódio de Nestor agora se manifestava nela. Foram várias facadas que o homem não tinha mais vida.

Fernanda foi indiciada, mas até seu julgamento ficou em liberdade. Nesse tempo, foi pra igreja buscar um pouco de paz. Encontrou uma nova força pra continuar tocando a vida. Mas em 2014 a justiça lhe chamou novamente, era o julgamento que tinha data marcada. Na frente do juiz Fernanda contou sua história, mas a lei não tradou e aos 55 anos, Fernanda foi condenada a cinco anos de reclusão para pagar pelo crime que cometeu.

“O inferno é a prisão, nunca pensei que pudesse passar por isso em minha vida”. Dos cinco anos, ela já cumpriu dois. Ter bom comportamento ajuda na redução da pena. Mas precisa de um bom advogado pra não ficar na mão. Então, ela lembrou que tinha uma economia guardada no banco que cobriria as despesas com o advogado.

Mas qual não foi à surpresa ao checar sua conta e não ter dinheiro nenhum? Fernanda lembrou que o filho, aquele mesmo que vivia nos fundos de sua casa e mal falava com ela por influência da esposa, tinha os seus dados bancários e sua senha. O rapaz tirou todo o dinheiro da conta e sumiu no mundo com a mulher, deixando a mãe na mão.

O que resta é esperar pelo advogado do Estado e a visita rara dos outros dois filhos que moram em outro Estado. Conversando comigo em sua cela, Fernanda alimenta seu único fio de esperança lendo uma pequena Bíblia e confiando que seu Deus não a abandonou.
*Nome fictício e foto aleatória da ação Retratos do Cárcere 2

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