Ações

Retratos do cárcere 2

30 maio, 2016
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Vem aí a segunda edição da ação que foi um marco na história do Coletivo Maria. O “Retratos do cárcere” foi criado para empoderar mulheres que fazem parte do sistema prisional. Nós reunimos uma equipe com profissionais de estética, designers e fotógrafos. Na penitenciária, as mulheres são preparadas para uma sessão de fotos e vivem o seu dia de modelo fotográfica.

Essa é uma ação que já desenvolvemos em diversas comunidades e estamos partindo agora para mais uma experiência dentro de uma penitenciária. Estivemos na mesma penitenciária no último mês de março e lá trabalhamos com 50 mulheres. Foi um tempo incrível onde pudemos ouvir histórias que nos marcaram para sempre. Foi uma ação incrível que foi construída por dezenas de pessoas ao redor do Brasil que se mobilizaram para doar todo o material necessário para que isso pudesse acontecer!

Então chegou a hora de retornarmos à mesma penitenciária para atendermos mais 60 mulheres e experimentar por lá a doce sensação de auxiliar no empoderamento feminino!

Para essa ação, além de voluntários, também vamos precisar de:

  • Maquiagens
  • Pincéis descartáveis (de maquiagem)
  • Papel fotográfico
  • Tinta fotográfica

Se você quer e pode contribuir de alguma forma, envie email para josisalgado@coletivomaria.com.br

Você pode ver como foi a ação anterior clicando aqui e aqui.

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Vivências Fotográficas

Karla Fabiana Dourado da Silva

20 maio, 2016
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Eu sou Carla Fabiana Dourado da Silva, tenho 44 anos e sou missionária da organização cristã Jocum (Jovens Com Uma Missão) há cerca de 24 anos. Ser missionária para mim é desafiador, mas também é muito gratificante porque envolve crescimento, relacionamento, fé e perseverança para superar as dificuldades que vão surgindo.

Nasci na cidade baiana de Irecê e cresci numa família bem estruturada e com uma base muito sólida, e isso foi muito importante na minha formação pessoal. Sempre fui uma mulher independente e tive liberdade para fazer minhas escolhas de vida. E foi assim que aos 16, 17 anos defini que entre a faculdade de jornalismo e a vida missionária, eu escolhia a segunda opção. E não me arrependo porque fui uma jovem muito idealista e viver com um propósito maior sempre pareceu ser meu destino. Já estava no meu DNA ser uma “quebradora de paradigmas” e uma buscadora da verdade.

Na minha adolescência já estava envolvida com causas sociais e desenvolvimento de projetos, meu desejo era trabalhar como jornalista política porque eu tinha um forte engajamento civil nesse assunto. Mas não pense que me sinto frustrada por não ter cursado uma universidade, como missionária não deixo de ser uma comunicadora e me sinto satisfeita e realizada profissionalmente.

No passado, vivi alguns episódios de preconceito por ser mulher mas consegui superar todos. Um que me marcou foi ainda na infância, quando um amigo de escola tentou me beijar a força. Além de não deixar que ele me beijasse, fiz questão de ir na diretoria para relatar o ocorrido. Nunca tive medo de manifestar minha opinião e garantir meus direitos como mulher, então esse episódio ilustra muito minha postura frente à vida.

Ser mulher para mim é precioso demais, considero que ter nascido neste sexo é muito importante. Gosto de ser quem sou a não tenho medo de explorar minha feminilidade. Ainda mais bacana é poder proporcionar essa mesma convicção para outras mulheres, que precisam de afirmação e busca quanto a sua sexualidade.

Minha mensagem para todas as mulheres é que cada uma não seja apenas mulher por ter nascido como uma, mas que se posicione como tal. Que você possa buscar o seu melhor explorando sua beleza e natureza. Maravilhoso nesta vida é ir além de seus limites e de como você se vê. Se ame, se descubra como mulher e conheça seu universo para que possa vencer suas barreiras. Seja você mesma e viva permanentemente alegre, independente das circunstâncias.

 

Vivências Fotográficas

Juscinalva Silva dos Santos

14 maio, 2016
J&S (8)

Meu nome é Juscinalva Silva dos Santos, tenho 36 anos e sou missionária cristã há 13 anos. Nasci em Mutuipe, cidade no interior da Bahia. Atualmente vivo em Salvador numa base missionária. Trabalho na área de treinamento e aconselhamento, e estou acostumada a conhecer e me relacionar com muitas pessoas. Nessa área vivi experiências maravilhosas e viajei para lugares que antes não imaginava que pudesse pisar. Moçambique, Gâmbia, Cabo Verde, Senegal, Chile, Argentina, entre outras cidades aqui no Brasil.

Em todos esses lugares sempre fui para trabalhar e servir aos povos locais. Foram nessas jornadas que cresci, me curei de algumas feridas passadas e aprendi mais sobre como ser mulher e feminina. Aos poucos fui sendo moldada pelo Criador para me relacionar com tantas pessoas e culturas diferentes, mas também aprendi muito sobre humildade, perdão e amor – essenciais para meu trabalho de aconselhamento.

Já sofri preconceito por ser mulher no ambiente profissional, por pessoas que não acreditavam na minha capacidade e potencial. Mas a vida tem provado a mim mesma que posso fazer tudo o que quiser, por isso não me envergonho de dizer que estou recuperando o tempo perdido nos estudos e pretendo começar a faculdade de nutrição ainda este ano.

Para mim ser mulher é viver a essência que Deus me deu unida à agilidade de ser e fazer várias coisas ao mesmo tempo: mãe, esposa, filha, estudante etc. tudo ao mesmo tempo. É assim que vejo a graça e a beleza de ser mulher.

Minha mensagem para todas as mulheres é que elas jamais esqueçam de cultivar sua essência única e pessoal, através da espiritualidade e que lembrem-se que ser mulher em si já é uma conquista e superação. Que todas as mulheres possam saber que é possível alcançar todos os seus objetivos e muito mais que isso, ir bem mais além do que se possa imaginar.

 

Sem categoria

A alegria de ser como as outras

18 abril, 2016
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Por Mila Coutelo

“Você não é como as outras”, eles diziam.

“Você é diferente. Tipo um dos caras”, eles completavam.

Ahhh que sensação maravilhosa! Eu era um floquinho de neve especial… Eu era diferente.

Ser “um dos caras” era ser livre, descolada, sem frescura, sem caderninhos rosas, segredinhos e risadas agudas. Era ser diferente das outras.

Que outras? Sei lá, todas as outras. O que importa é não ser igual.

A verdade é que essa sensação de não ser uma das outras é apenas isso: uma sensação. É uma forma de isolamento, de colocar tudo em caixinhas, de não pertencer.

Com a maturidade e várias rasteiras e tapas da vida, percebemos que as coisas não são bem assim. As outras sou eu e eu sou as outras.

Somos nós. Todas. Tão diversas, tão únicas e tão iguais. Presas numa luta que nem sabemos como começou. Ah! Sim. Nos lembramos, começou com a ilusão de ser única.

Querer ser “um dos caras” é querer a liberdade que o mundo dá pra eles. O não julgamento, as poucas regras, o poder ser o que quiser, andar tranquila pela rua, ir à festas sem ter que fazer mil planos e esquemas para se livrar de babaca e voltar em segurança pra casa, é poder falar o que quiser sem parecer metida e viver com menos nãos.

E aí a gente cresce e percebe que é muito injusto que só “os caras” possam ter isso e que não, você nunca foi um dos caras porque, por mais livre e desencanada, que fosse, esses nãos e preocupações sempre fizeram parte da tua vida. Você vira pro lado e percebe que “as outras” passam pelo mesmo dilema que você e outros ainda piores. E que não é EU X ELAS, somos nós.

Que maravilha é quando nos damos conta disso. É desesperador perceber o quanto temos que lutar, mas é acolhedor saber que não somos mais um floquinho de neve especial e solitário. Que “elas” estão ali, com as risadas finas, os segredos, os abraços e o acolhimento.

Que não precisamos ser “um dos caras” pra encher a cara de cerveja, falar sobre sexo, viajar sozinha, gostar de filmes de ação e querer ser astronauta.

Descobri que sou como as outras (todas tão diferentes entre si) e hoje minha mesa de bar, minhas mensagens no whatsapp, minha estante de livros, minha lista de filmes estão tão lotadas delas e isso me deixa muito feliz. Me sinto pertencendo e nada mais bonito do que pertencer.

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#MarçodeIgualdade

Março de Igualdade 30 | 31 – Eles por Elas

30 março, 2016
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Por André Rocha

Estamos chegando ao fim desse manual. Esse é o penúltimo post do #MarçodeIgualdade. E escrever o “Eles por Elas” faz com que sinta uma honra indescritível. Principalmente por ver que nem todos conseguem enxergar a honra que é fazer parte do grupo que pode ser denominado “Eles por Elas”.

Sim, é uma honra indescritível, pois a mulher é o ser mais sagrado e mais perfeito já criado! É invejável – no bom sentido – a capacidade que a Mulher tem em ser multidisciplinar em todos os aspectos de sua vida!

Sinto-me honrado por ser parte da vida de Mulheres comuns e ao mesmo tempo incríveis. Sou filho, irmão, marido…  E tento, na minha imperfeição, me espelhar nessas Mulheres que dentro de suas limitações realizaram e realizam feitos que tornam o mundo um lugar melhor. Essas Mulheres alimentam, educam, criam coisas extraordinárias – inclusive pessoas.

Enquanto escrevo vou me lembrando de muitas Mulheres que escreveram com ouro em minha história… Quantas colegas, amigas, professoras que contribuíram para moldar o meu caráter e fizeram com que hoje eu pudesse me declarar, sem sombra de dúvida, um homem feminista!

Sim! Eu sou feminista! E feminista é uma das palavras que me define. Sou pai do Pedro, um bebê de 1 ano e meio e tenho o criado de modo que ele possa crescer honrando todas as mulheres em todos os aspectos.

Quero que ele cresça contribuindo com os afazes de casa, cedendo seu lugar no transporte público – independente da idade de quem estiver em pé. Quero que ele cresça respeitando todas as pessoas e exaltando todas as mulheres. Quero que ele cresça escrevendo singelos bilhetes e dando flores à nossa musa maior. E que também que não tenha vergonha de carregar uma simples rosa pela rua enquanto recebe olhares de espanto. Quero que quando ele for adolescente e jovem, não seja uma babaca qualquer que “pega as mina”. Quero que não tenha vergonha de chorar ou se mostrar sensível pra “não passar a impressão de não ser macho, afinal de contas, homem não chora”. Quero que não tenha vergonha de demonstrar seu amor em público. Quero que tenha a honra de ser marido de APENAS UMA Mulher e pai zeloso de sua família. Ser assim e educa-lo dessa forma é a pequena contribuição que posso dar nessa urgente e inerente necessidade de mudança em nosso mundo…

Utópico? Céticos dirão que sim. Mas sou parnasiano. Acredito na valorização e beleza de cada detalhe, na assombrosa grandeza que existem nas coisas pequenas e no culto à forma. E é exatamente isso que consigo enxergar na Mulher: forma inalcançável, beleza incondicional e riqueza em todo e qualquer detalhe. Sem dúvida, a Mulher é o ser mais perfeito que a natureza já viu…

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#MarçodeIgualdade

Março de Igualdade 29 | 31 – A maternidade

29 março, 2016
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A gravidez é um momento único na vida de cada mulher, repleta de sentimentos de angústia, medo e felicidade. A gravidez representa fertilidade o que a torna de “mulher filha” para “mulher mãe”. O nascimento de um filho é um momento de grandes transições na vida de uma mulher, principalmente na sociedade atual onde o papel da mulher tem sido ressignificado.

A mulher atual além da função materna de reprodução e cuidados com os filhos, possui objetivos profissionais e pessoais, quer sua independência econômica, se preocupa com o seu crescimento profissional, quer sentir prazer nas suas relações afetivas e quer estar bonita e jovem, precisando assim dividir o seu tempo entre estas atividades e ainda lidar com a pressão social repleta de padrões do que é ser uma boa mulher e uma mãe exemplar.

Segundo o filosofo francês Gilles Lipovetsky auto do livro – A terceira Mulher, “a dinâmica pós-moderna da emancipação feminina não significa homogeneização dos papéis dos dois gêneros, mas persistência no papel prioritário da mulher na esfera doméstica, combinando com as novas exigências de autonomia individual”, ou seja, trabalhar fora de casa, ser uma profissional bem sucedida é somar responsabilidades, mais do que isto é frequentemente, suportar uma certa medida de conflitos e culpa.

Por conta destes anseios e outros motivos muitas mulheres optam por não ter filhos e são julgadas pela nossa sociedade como mulheres inferiores, afinal de contas não usufruíram de sua feminilidade na sua totalidade, são vistas com mulheres sem coração incapazes de desenvolver o dom do cuidado e ainda precisam conviver com eternas perguntas do por que optaram por não ser mãe.

Como mãe, jamais mais me vejo em outra se não nesta posição, mais estaria sendo injusta se limitasse o ser Mulher apenas a maternidade, afinal gerar um filho e cuidar deste é apenas parte do que sou como Mulher e não um todo. E o fato de ser mãe ou não ser mãe não limita a minha feminilidade exercida tanto para mim, quanto para a sociedade.

Também é necessário falarmos mais do que é exercer a maternidade na sociedade atual, de como ressignificar “obrigações” impostas somente às mulheres, como cuidado com a casa e educação dos filhos. Afinal, nos tempos atuais, tanto o homem quanto a mulher tem responsabilidades fora de casa a partir disso para uma maternidade mais leve é necessário redistribuir atividades intra-familiares. Certamente o verbo maternar e paternar se completam e formam famílias mais saudáveis e livres do conceito opressor que é o machismo.

Finalizo este texto, pedindo para que nós mães tenhamos mais empatia umas pelas outras, criticando menos a maternidade uma da outra. Acredito na importância de compartilhar nossas experiências, mas não as colocando como absoluta verdade. Acredito que o conceito de Sororidade, que falei aqui se encaixa perfeitamente como um valor da Maternidade, que possamos nos tratar como irmãs e não como concorrentes de quem tem o filho mais lindo e mais inteligente, afinal de contas já temos muito a fazer e ressignificar a partir da maternidade.

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Ações

Retratos do Cárcere – Vítima do amor espera justiça divina

28 março, 2016
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Por Glória Branco

 

Desde pequena Neuza* já sonhava em encontrar o “príncipe encantado”, o homem que a faria feliz acima de qualquer circunstância e que a salvaria de uma vida sem rumo e sem graça. Não esperava desse príncipe uma beleza física espetacular, mas uma personalidade gentil e calma, um caráter forte de homem másculo e viril, porém tolerante e amável.

As fantasias juvenis libertavam ao menos a mente de Neuza da condição asfixiante de sua própria casa, aonde cresceu vendo a mãe sofrer nas mãos de seu pai alcoólatra e violento. Com medo dos rompantes agressivos do pai, Neuza e seus irmãos quase não abriam a boca nem para chorar quando via a mãe ser espancada sem misericórdia.

Adulta, Neuza foi morar com um grupo de amigas em uma pensão no centro de São Paulo. A vida não era fácil, mas Neuza trabalhava e conseguia com sacrifico pagar suas despesas. Da família não fazia questão de contato, principalmente depois que a mãe morreu vítima de um câncer. O pai se acabou na bebida e os irmãos havia cada um tomado um rumo diferente. Para Neuza sua família era aquela que conheceu na igreja, depois que se batizou sua vida era do trabalho para casa, da casa para igreja.

Um dia chegou um rapaz novo na igreja, de boa aparência e com uma história parecida com a sua: um pai alcoólatra, uma mãe sofrida, irmãos com quem não falava mais. Neuza sentiu uma empatia instantânea por José e logo os dois estavam sempre juntos, do trabalho para casa, da casa para igreja. Parecia que o sonho de Neuza estava a tornar-se realidade, o “principie encantado existe e veio ao meu encontro”. Quando José falou em casamento a jovem de 24 anos não pensou duas vezes ao dizer sim.

Somente durante o cumprimento de sua pena numa penitenciaria da capital que Neuza parou para pensar em suas escolhas, lembrou que de tão apaixonada não se lembrou de conhecer melhor o homem que a pediu em casamento. Mergulhou de cabeça na paixão, deixando suas carências dar às cartas de seu destino. Nunca passou por sua cabeça, quando sonhava com um homem que a amaria incondicionalmente, que em sua história carregaria o peso de um crime de homicídio em legítima defesa.

Neuza não é uma mulher com cara de criminosa (como se o crime tivesse cara), parece mesmo uma dona de casa. E foi no dia a dia da casa, nos cuidados com a família, que Neuza viu a trajetória de sua mãe se repetir em si. José não era mais o príncipe do
inicio da relação. Neuza tem incontáveis marcas de agressões físicas sofridas nos nove anos que passou casada com ele, mais as inúmeras cicatrizes emocionais.

Na prisão ela me conta sobre os abusos entre lágrimas, me mostra uma marca na cabeça deixada pelo ferro que José usou para surrá-la. Relembra o desespero que sentiu quando em outra ocasião seu ex-marido bêbado e drogado lhe deu um banho de álcool para incendiá-la. Foi por sorte que conseguiu correr e fugir do mísero homem.

Quando Neuza procurou pela justiça para afastar o marido de seu caminho, acreditou que tudo ficaria bem. E ficou por alguns meses, Neuza sentia um alívio por não sentir mais medo e se arriscou a iniciar um novo relacionamento. Não tinha notícias de José há um tempo e pensou estar salva do drama de um casamento deplorável.

Entretanto, numa tarde de domingo José reapareceu bêbado e drogado como sempre. Neuza pediu que ele fosse embora, disse que não poderia estar em sua casa. Mas José chorava e pedia à mulher que deixasse ao menos ele tomar um banho, porque estava a dias dormindo na rua. Neuza pensou em não deixá-lo entrar, mas por um instante teve pena do marido. Assim que abriu a porta José foi pra cima dela esbofeteando sua cara, lhe chamou de vagabunda, puxou seus cabelos, deu um soco em seu olho direito.

Neuza tenta se defender de alguma forma, mas José era forte e quando estava nervoso ficava mais forte ainda. Então pediu pelo amor de Deus, que ele parasse. Mas José disse que se não fosse com ele, ela não ficaria com mais ninguém. Ela sabia que ia
morrer nas mãos de José senão fizesse nada. Quando ele voltou a levantar a mão para lhe esmurrar, Neuza pegou uma faca que estava na mesa e sem hesitar enfiou a arma em seu pescoço.

José chegou a ser levado ao hospital, mas por conta do grave ferimento e do seu estado embriagado não resistiu e morreu. Agora Neuza aguarda na justiça o resultado de seu processo, em primeira instância foi condenada a cinco anos e seis meses de detenção, mas recorreu alegando legítima defesa. O advogado acredita que pelo histórico de agressões, Neuza saia logo em liberdade.

Com um olhar triste de quem já apanhou muito do destino, Neuza espera recomeçar a vida com mais sorte e bênçãos. “Sei que Deus não me abandonou, suportei tudo que já vivi e tenho suportado a prisão também. Espero pela justiça divina na minha vida”.

*Nome fictício para preservar a integridade da entrevistada. Imagens aleatórias da ação, não sendo necessariamente da mesma.

 

#MarçodeIgualdade

Março de Igualdade 28 | 31 – Mulheres encarceradas

28 março, 2016
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Por Geralda Ávila

O encarceramento de mulheres no Brasil é alarmante e cresce de forma exponencial. Entre os anos 2000 a 2014, o número de mulheres encarceradas aumentou inacreditáveis 567,4% registrando em junho de 2014 uma população de 37.380 mulheres reclusas. Comparativamente, no mesmo período, a média do encarceramento masculino cresceu 220,20% registrando uma população carcerária de 542.401 homens.

Lançado em 2015, os dados são do INFOPEN Mulheres – Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias – que pela primeira vez disponibilizou dados penitenciários por gênero. Estes dados são relevantes para dar visibilidade a essa parcela da população e desenvolver políticas públicas voltadas à superação dos problemas.

Em geral as mulheres submetidas ao cárcere são jovens, mulheres correspondem a 8% do total da população carcerária; 80% delas tem filhos e são as responsáveis por prover o sustento da família; possuem baixa escolaridade; pertencem a extratos sociais desfavorecidos economicamente; exerciam atividade de trabalho informal no período anterior à prisão; o aumento do aprisionamento feminino não se circunscreve a delitos violentos; o aumento da taxa de mulheres presas se dá em razão de entorpecentes, sendo que a maioria envolve pouca quantidade de droga e 65% dessas mulheres estão cumprindo penas por delitos relativos às drogas, o que proporcionalmente representa três vezes mais que o número de homens detidos pelo mesmo delito, sendo que as mulheres ocupam um papel coadjuvante no tráfico, estão na ponta da ponta da ponta da venda, representam a vidraça o que as tornam extremamente vulneráveis.

O extraordinário aumento da população de mulheres em privação de liberdade reflete a política de encarceramento em massa camuflada de política punitiva de segurança made in USA, exportado para países europeus e copiado por países da América Latina. Essa política, nas palavras do sociólogo Loic Wacquant, consiste em (r)estabelecer uma verdadeira ditadura sobre os pobres, contrariando a consolidação de uma sociedade democrática.

Cada país, com suas peculiaridades, buscam apoio nas instituições policial e penitenciária, a fim de conter as desordens geradas pelo desemprego, pela imposição do trabalho assalariado precário, pelo vácuo da proteção social do Estado. Notadamente na América Latina ao importar essas políticas e as técnicas agressivas de segurança, os políticos anseiam por uma solução mágica para o crucial problema da violência criminal.

Na esteira da “guerra às drogas” Martin Jelsma, cientista político holandês, especializado em políticas internacionais de controle de drogas, lançou em 2009 um relatório de Inovações Legislativas em Política de Drogas:

“Este relatório apresenta um resumo das boas práticas nas reformas legislativas em políticas sobre drogas em todo o mundo, que representam um afastamento do modelo repressivo de tolerância zero e um avanço em direção a uma política de drogas mais humana e baseada em evidências empíricas. Os exemplos refletem as lições aprendidas na prática com as abordagens menos punitivas e seu impacto sobre os níveis de consumo de drogas e os danos associados sobre o indivíduo e a sociedade. As evidências sugerem que a legislação que reduz a criminalização, acompanhada de medidas que favoreçam o deslocamento de recursos alocados em atividades de repressão e encarceramento para a prevenção, tratamento e redução de danos, é mais efetiva na redução dos problemas relacionados às drogas. Os temores de que o relaxamento das leis antidrogas e sua aplicação se traduziriam por um drástico aumento do consumo de droga provaram ser infundados. Os exemplos podem ser considerados como avanços em relação a um modelo excessivamente repressivo de controle de drogas e apontam para uma direção de reformas e mudanças de paradigma mais significativas no futuro.”

No Brasil, o aprisionamento de mulheres se apresenta de modo perverso considerando a matriz histórica da cultura patriarcal que versa o funcionamento do sistema penal no país e dita regras de conduta em que “uma mulher não deve vacilar”. O reflexo dessa “norma” é explícito em dias de visita nos presídios femininos, quando observamos o número minguado de visitantes. Maridos e/ou companheiros no mais das vezes desaparecem, filhos raramente visitam, a figura do pai não é notada e até mesmo a mãe não admite que a filha tenha caído naquela situação. É comum ouvir das mulheres presas: -“eu peço para minha família, principalmente meus filhos não virem me visitar, para não passarem por humilhação”…essa afirmação pode ser verdadeira porque são grandes os constrangimentos a que são submetidas os familiares da presa, isto porque na visão de alguns agentes penitenciários e de grande parte da sociedade, parente de bandido, bandido é. Mas, numa conversa mais próxima, essas mesmas mulheres confessam que foram abandonadas ao ingressarem na prisão, ou seja, as mulheres são condenadas em muitas instâncias: pela vida, pela “justiça”, pela sociedade, pela família, gerando um círculo de violência e abandono que se reproduz ao longo de toda vivência, para além muros, permeando o cotidiano das egressas do sistema prisional e muitas vezes esse histórico violento passa para outras gerações.

A situação tende a ficar ainda mais grave quando trata de mulheres grávidas, mulheres que na ocasião da prisão estavam em estado adiantado de gestação, isto  porque não há estrutura para atender as demandas femininas, não há atendimento adequado para gestantes e bebês. Quando eu soube que Zenaide* fora presa em flagrante estando no oitavo mês de gestação, perguntei a ela – Você foi levada à presença do juiz? E ele não viu que você estava grávida? E ela me respondeu: – Não viu não, ele não olhou pra mim.

Os relatos são todos muito parecidos denotando o tratamento hostil dado as mulheres pelos operadores da justiça, hostilidade essa que é reproduzida dentro do sistema prisional.

E, se o Estado persiste em manter dentro do sistema penitenciário precário uma mulher grávida ou com bebês, tem o dever de fornecer condições adequadas para tal.

A permanência das crianças junto às mães é outra questão polêmica que, por um lado alivia para a mãe, de certa forma a penosa trajetória do cumprimento da pena, por outro lado gera dor e sofrimento ao ver o bebê naquele ambiente hostil, fato este que torna imprevisível avaliar as consequências para o futuro dessa criança.

O mesmo quadro de degradação se apresenta quando a mulher presa é idosa e/ou doente, pois para todos os males são oferecidos medicamentos simples e restritos. Inúmeros são os casos de mulheres acometidas de doenças respiratórias, cardiovasculares, hérnias em estado avançado, hipertensão, diabetes, criptococose  que é transmitida pelo pombo, soropositivo, cânceres, doenças mentais, todas convivendo no mesmo ambiente sem observância da especificidade de cada doença.

Não posso deixar de registrar dois casos que acompanhei. O caso da Roseli* que cumprindo pena em regime semiaberto, havia sido transferida recentemente do hospital de custódia de Franco da Rocha, era esquizofrênica e tomava medicamento controlado, duas companheiras de cela a cuidavam, porém em um dos surtos que teve cometeu suicídio por enforcamento. Outro caso mais recente, Vera* que trabalhava numa das empresas instalada na unidade, se queixou de fortes dores de cabeça e foi tratada com dipirona, a dor acentuou e o mesmo medicamento foi oferecido, até que sofreu um AVC e está hoje em cima de uma cama com seguelas que a tornara incapacitada para qualquer atividade cotidiana.

Há muitas alternativas para o encarceramento feminino, aponta Kenarik Boujikian, desembargadora do TJSP. Documentos nacionais indicam a necessidade de que se estabeleçam políticas públicas diferenciadas para as mulheres encarceradas e é urgente que o Estado Brasileiro realize ações efetivas de inclusão da mulher presa, buscando o equilíbrio, sanando a desigualdade histórica, focando as especificidades de gênero.

 

*Os nomes das mulheres são fictícios.

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Referências:

#MarçodeIgualdade

Março de Igualdade 27 | 31 – Aborto

27 março, 2016
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Por Rose Santiago

“Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome.” Principalmente fome de amor, fome de vida.

Estão querendo acabar com a vida, antes mesmo dela ter tido a chance de fazer diferença no mundo.

Sou diretora do Cervi – Centro de Reestruturação para a Vida há quase oito anos (desde a sua fundação). É a única instituição na América Latina que oferece assistência integral à mulher que passa por uma gravidez inesperada, valorizando a opção pela vida. Recebemos aqui todos os dias, mulheres que se vêem sem saída com sua gravidez e que, a princípio, a única opção seria o aborto. Entretanto, ao serem acompanhadas, abraçadas (às vezes não só a mãe, mas o casal) e alertadas sobre a possibilidade da vida e os riscos do aborto, optam por deixar a semente da vida florescer.

Desde 1991, tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei (PL) n°1.135/91, que legaliza o aborto no Brasil. Na verdade, este projeto vem revogar os artigos 124,125,127,128 do Código Penal que criminalizam o aborto. O que tudo isto quer dizer? Que desde 1991, a proposta da legalização do aborto feita por um deputado federal, está em Brasília para ser aprovado e caso isto aconteça, os artigos que dizem que o aborto no Brasil é crime, deixaram de ter legalidade, ou seja, deixam de ter proibição e passa a ser algo “normal”. Como esta proposta não designa tempo, vai um pouco mais além, deixando livre a opção pelo aborto até, se for o caso, o nono mês de gestação.

Em meio a este turbilhão de leis e questionamentos, trata-se de vidas e não simplesmente de pontos de vista. Vida não apenas do feto que foi deixado de lado, mas da mãe que fez esta opção e deixou ir com ela a consciência livre, a saúde física e emocional.

Acompanhamos aqui no Cervi muitas mulheres que já fizeram aborto e hoje carregam a culpa e todas as conseqüências que ele traz. Nossa preocupação maior é qualidade de vida emocional e física que subsiste para a mulher (e seu parceiro, o emocional também se abala) e a acompanha em todos os momentos. Independentemente de ser legal ou clandestino, o que vai na mente humana é algo intransponível e que nenhum outro ser consegue aliviar ou tirar, por mais poder de convencimento que se tenha.

É exatamente por ver e caminhar com estas e muitas outras mulheres que optaram pela vida, que o Cervi trabalha na prevenção, para evitar chegar nesta polêmica.

 

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#MarçodeIgualdade

Março de Igualdade 26 | 31 – Mulher e o feminismo

26 março, 2016
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Por Glória Branco

Na Nigéria do século XIX, era comum na cultura Igbo que meninas recém-saídas da infância se casassem com homens que não amavam e sequer conheciam. Para evitar esse destino, as jovens precisavam contar com a sorte de ter uma família que não se curvava a essa cultura ou com a coragem de enfrentar uma sociedade sexista para viver seus próprios sonhos.

A palavra “feminista”, como a própria ideia de feminismo, é limitada por estereótipos. Comumente se diz que as feministas são mulheres infelizes, que não conseguem arranjar marido, que odeiam os homens, que odeiam sutiã, que não se depila, não se pinta, não tem senso de humor e não usa desodorante.

Porém feminismo não é o contrario de machismo, não é a ideia de que mulheres são melhores que os homens, também não é um movimento pelo fim da família e das religiões. Feminismo é, na verdade, uma ideia bem simples: a de que homens e mulheres têm dignidade igual e merecem direitos equivalentes. Quer dizer, ser mulher e não ser feminista seria um contrassenso sem tamanho.

O que é importante quando falamos de feminismo é compreender que existem várias correntes com as quais cada mulher pode se identificar ou não. Existe a corrente intersecional, que acha que a realidade das mulheres deve ser analisada e transformada considerando vários fatores da vida de cada uma, como cor, classe social, orientação sexual, entre outros. Também existe o feminismo liberal, que é contra cotas e outras políticas de incentivo e acredita que as mulheres, individualmente, podem conquistar seus espaços. Tem ainda o feminismo radical, que luta contra todas as estruturas que estão aí – contra a forma tradicional de família, por exemplo.  As radicais são muito comprometidas com a luta contra a violência sexual e de gênero.

Portanto é sábio estudar sobre o movimento e entender que ele está diretamente ligado as conquistas das mulheres nos últimos anos. Porque, vamos combinar, nenhuma pessoa com conhecimento mínimo de história pode negar que as mulheres foram e são oprimidas. A narração do começo deste artigo ilustra bem isso. Se quiser mais, imagine que até o ano passado as mulheres não podiam votar na Arábia Saudita!

O debate primordial é para construir uma sociedade em que as mulheres são mais felizes e para isso não existem questionamentos proibidos nem perguntas ofensivas. Feminista é, na verdade, a mulher ou o homem que diz: “Sim, existe um problema de gênero ainda hoje e temos que resolvê-lo, temos que melhorar”.

Se desafie a pesquisar mais sobre o feminismo e identificar com qual corrente você melhor se encaixa, e vá a luta pelos seus direitos e de todos porque todos nós, homens e mulheres, precisamos nos tornar seres humanos melhores.

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