Vivências Fotográficas

Lilian Marques

18 março, 2016
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Eu sou a Lilian Marques, tenho 25 anos e trabalho como arte educadora em museu. Acredito no poder transformador da educação, no seu potencial em reverter nosso quadro político e situação de miséria. Quando as pessoas têm acesso a uma formação educacional de qualidade, possuem mais chances de se desenvolver econômica e individualmente. Também é fundamental quando se compreende a necessidade de cada indivíduo traçar linhas de pensamento e raciocínio sem que tenham tanta influência da mídia.

Eu, infelizmente, há alguns anos, passei por um relacionamento abusivo, onde me sentia burra, feia, pequena. Aos poucos fui percebendo que quanto mais eu me sentia burra, mais burra eu ficava. Pelo menos essa era a impressão que eu tinha. Não conseguia mais falar com as pessoas. Ficava pensando que era melhor ficar quieta, afinal, o que eu teria de bom para falar?

Eu sabia que tinha algo de errado, mas não sabia exatamente o que era, achava que a errada era eu, que eu que não sabia me dar o respeito, que falava demais, brincava demais. Foi quando eu mudei de trabalho, conheci pessoas novas e comecei a observar nessas pessoas coisas que elas tinham que eu havia perdido. Comecei a observar que eu havia me tornado uma pessoa triste. Foi aí que passei a sentir saudades de mim.

Sentir falta do que sempre fui. Foi uma experiência maluca. Me perguntei durante muito tempo se era certo atribuir tudo aquilo à uma única pessoa. Compreendi que não era uma questão de culpa. Era uma necessidade minha de ser feliz. Eu precisava entender exatamente como estava, onde queria chegar e os caminhos necessários para seguir.

E foi nessa busca de voltar a ser quem eu era que eu consegui sair deste relacionamento e me impor. Lembro-me de algumas discussões onde eu acabava jogada no chão. Nesse momento eu chorava, desejando que ninguém passasse por isso, nem a pessoa que eu mais odiava no mundo. Porque a impotência de não saber o que fazer doía no fundo da alma.

Eu não gosto de falar sobre isso, inclusive, até agora, pouquíssimas pessoas sabiam, mas por outro lado, enquanto educadora e feminista, eu tenho medo de saber que alguém passou por isso ou algo parecido e mesmo sabendo como é eu não fiz nada.

Então, hoje e sempre que puder falar a alguém eu digo: se você não sabe o que quer, ao menos saiba o que você não quer. E siga isso. Afinal, ninguém quer se sentir burra, ninguém quer se sentir desrespeitada. Saber isso certamente te afastará dessas pessoas, pois não temos como bater o olho e saber, mas a partir de meia dúzia de comportamentos é possível identificar coisas que não são legais e a partir disso se impor. Se impor é muito importante!

Anos depois, depois de muita dor nós conversamos! Eu pude, finalmente, me impor e dizer o quanto me desesperava imaginar que outras mulheres poderiam passar por aquilo. Eu entendi que, embora todas as respostas tenham sido positivas por parte dele, mostrando muita compreensão por tudo o que dizia, o contrário também poderia ter acontecido. Eu precisava mesmo era falar com quem poderia estar passando por isso ou algo parecido agora. E dizer que a vida é linda. Com mil possibilidades. Que tentar se acertar com alguém, trazer essa pessoa pro seu caminho, é igualmente lindo, mas desde que não tenha dor.

Possuir um corpo que aguenta as dores de cólica, as do parto, as imposições de comportamento que a sociedade impõe, as ofensas ouvidas na rua e ainda ter de lidar com filhos, trabalho e relacionamentos pode ser tolerável, mas apenas se esse mesmo corpo for respeitado por toda sua magnitude.

Ser mulher é, como diz uma amiga muito querida, a mistura mágica e encantadora de útero e punho. A partir desse pensamento, fui entendendo a mulher como um ser grandioso com a capacidade de gerar uma vida, ainda que ela não queira isso. Nosso corpo já nasce com essa predisposição e mesmo que muitas não possam, não há como negar a grandeza do corpo feminino. Algumas linhas da antropologia sugerem que quando as comunidades de pessoas começaram a se formar, a mulher era a figura central. Atualmente, em outras proporções e contextos, ainda temos a mulher nessa figura de centro: é tudo com ela! Os filhos, a casa e ela ainda sai para trabalhar, por isso eu não consigo pensar em uma mulher menos que incrível. Sobretudo as mães solo.

Eu ouvi uma senhora falando que a mulher tem que pensar igual ao homem, isso me entristeceu muito, porque como eu vou falar para esse ser tão grandioso que dá conta de todas essas coisas e ainda é tida como aquela figura de afeto — olha quanta coisa que a figura da mulher representa — que deve pensar como um homem? Por que o pensamento feminino, o “pensar como uma mulher” não é valorizado? Por que é diminuído?

Então, para mim ser mulher é ser incrível, mas precisamos valorizar isso. Pensar como uma mulher deveria ser considerado elogio.

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