Vivências Fotográficas

Domenica

7 dezembro, 2015
Domenica por Josi Salgado

Eu sou a Domenica, tenho 25 anos, sou uma jovem mulher negra, com todo orgulho, e com toda certeza não me enquadro na maioria dos padrões da nossa sociedade atual. Fui criada em uma família tradicional com princípios e valores que carrego até hoje comigo. Quando criança, diziam que eu era hiperativa porque era muito agitada e sempre estava envolvida em muitas atividades. Com o tempo constataram que eu faço parte de um seleto grupo de pessoas com altas habilidades, mais conhecidos como superdotados.

Minha infância foi normal aos meus olhos, porque sempre fiz o que todas as crianças faziam, com um diferencial: adorava números e tudo que levasse a uma razão lógica, e na adolescência descobri a física nuclear e mesmo sem saber muito, comecei a estudar por conta própria e isso foi crucial para a escolha da minha carreira. Durante o ensino médio eu me considerava a “nerd” do fundão, porque sempre andei entre a “galera descolada”, apesar de ser estudiosa. E também foi na adolescência que conheci a Jesus Cristo, e a partir daí todas as escolhas passaram a fazer sentido.

Domenica por Josi Salgado

Domenica por Josi Salgado

Nunca foi fácil ter que lidar com questões de ser a menina inteligente, porque todos dizem que se você é menina, você precisa gostar de rosa, você tem que gostar de carreiras profissionais em que a maioria é mulher, que a lógica e objetividade é exclusiva para homens, mas pra mim não é assim. Sinceramente não me considero feminista, mas penso que a mulher deve ser independente sem perder seus valores e essência feminina, sem deixar de exercer seu papel de mãe, filha, mulher, esposa, profissional. Fazer isso não me diminui como mulher, mas engrandece a natureza de quem eu sou, de como Deus me fez.

Nunca foi fácil lidar com um preconceito camuflado. É o triste “imposto negro”. Sempre tive que trabalhar três vezes mais que os outros pra provar que eu sou capaz, porque sou mulher, porque sou negra e porque sou cristã. Na escola era a questão racial, porque não é muito comum o aluno negro ter as maiores notas, porém sempre me destaquei porque tenho uma capacidade de compreensão acima da média, e ver isso de um aluno negro, infelizmente ainda é motivo de espanto pra alguns.
Meu pai dança muito bem e como “filho de peixe, peixinho é”, segui dançando também. Me apaixonei pela dança, mais especificamente o ballet clássico, que pratico há alguns anos.

O divisor de águas foi quando entendi que cuidar de pessoas era muito mais importante do que simplesmente as minhas realizações pessoais. Da física eu escolhi cursar engenharia civil, porque eu sempre acreditei que eu poderia salvar vidas proporcionando um lar decente, saneamento básico, acesso a lugares remotos e tudo isso apenas pela engenharia. Entrei na faculdade e batalhei muito em diversos aspectos. Tive que vencer as questões de gênero – entrei de cabeça em um mundo masculino. Hoje existem muitas mulheres nos cursos de exatas, porém os meninos ainda mandam. Além de ser menina em um curso dominado por homens, eu era a única negra da sala. Precisei passar por um processo de “masculinização” como a maioria das meninas na área. Chega ser engraçado quando você diz que é de algum curso de exatas. É nítida a expressão de duvida sobre sua opção sexual, como se estar ali mudasse seu gênero ou quem você é. Pra que você seja aceita nesse mundo masculino, e tenha o respeito necessário, você acaba agindo como um homem agiria, e isso muitas vezes paralisa a feminilidade.

Junto com a engenharia, veio também à oportunidade de dar aulas na rede estadual como professora de matemática e física. Sempre soube que a grande maioria não gosta de física e matemática. E quando comecei a dar aula, resolvi usar coisas fora do modelo tradicional e coisas que eu gosto pra ensinar. Uma das aulas que a molecada mais gosta é a de velocidade média com o uso de skates, isso começou despertar o interesse de alguns dos meus alunos para a matemática. Hoje aos 25 anos é um privilégio ver alguns alunos prestando o vestibular e escolhendo a mesma carreira que eu tenho porque se sentiu inspirado.

Com certeza ensinar é algo sublime. Como cristã encontrei o voluntariado. Hoje dou aulas como professora voluntária de ballet para cerca de 30 meninas de uma comunidade carente em uma organização cristã missionária na cidade de Francisco Morato, em São Paulo. E foi ensinando dança que eu consegui redescobrir o meu lado feminino, sensível, delicado. Sempre encorajo minhas alunas de que elas podem ser fortes, determinadas e com personalidade, mas sem perder a doçura, a delicadeza e a suavidade. Porque é isso que uma bailarina é.

Eu amo estar com as minhas meninas. Amo ser quem eu sou. Ter uma personalidade forte, ser inteligente, ser mulher, ser multitarefas. Amo a profissão que escolhi não por dinheiro – se eu não fosse engenheira, eu escolheria ser engenheira de novo. Amo ser professora e ensinar, encorajar e quem sabe até inspirar…

 

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