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#MarçodeIgualdade

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Março de Igualdade 30 | 31 – Eles por Elas

30 março, 2016
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Por André Rocha

Estamos chegando ao fim desse manual. Esse é o penúltimo post do #MarçodeIgualdade. E escrever o “Eles por Elas” faz com que sinta uma honra indescritível. Principalmente por ver que nem todos conseguem enxergar a honra que é fazer parte do grupo que pode ser denominado “Eles por Elas”.

Sim, é uma honra indescritível, pois a mulher é o ser mais sagrado e mais perfeito já criado! É invejável – no bom sentido – a capacidade que a Mulher tem em ser multidisciplinar em todos os aspectos de sua vida!

Sinto-me honrado por ser parte da vida de Mulheres comuns e ao mesmo tempo incríveis. Sou filho, irmão, marido…  E tento, na minha imperfeição, me espelhar nessas Mulheres que dentro de suas limitações realizaram e realizam feitos que tornam o mundo um lugar melhor. Essas Mulheres alimentam, educam, criam coisas extraordinárias – inclusive pessoas.

Enquanto escrevo vou me lembrando de muitas Mulheres que escreveram com ouro em minha história… Quantas colegas, amigas, professoras que contribuíram para moldar o meu caráter e fizeram com que hoje eu pudesse me declarar, sem sombra de dúvida, um homem feminista!

Sim! Eu sou feminista! E feminista é uma das palavras que me define. Sou pai do Pedro, um bebê de 1 ano e meio e tenho o criado de modo que ele possa crescer honrando todas as mulheres em todos os aspectos.

Quero que ele cresça contribuindo com os afazes de casa, cedendo seu lugar no transporte público – independente da idade de quem estiver em pé. Quero que ele cresça respeitando todas as pessoas e exaltando todas as mulheres. Quero que ele cresça escrevendo singelos bilhetes e dando flores à nossa musa maior. E que também que não tenha vergonha de carregar uma simples rosa pela rua enquanto recebe olhares de espanto. Quero que quando ele for adolescente e jovem, não seja uma babaca qualquer que “pega as mina”. Quero que não tenha vergonha de chorar ou se mostrar sensível pra “não passar a impressão de não ser macho, afinal de contas, homem não chora”. Quero que não tenha vergonha de demonstrar seu amor em público. Quero que tenha a honra de ser marido de APENAS UMA Mulher e pai zeloso de sua família. Ser assim e educa-lo dessa forma é a pequena contribuição que posso dar nessa urgente e inerente necessidade de mudança em nosso mundo…

Utópico? Céticos dirão que sim. Mas sou parnasiano. Acredito na valorização e beleza de cada detalhe, na assombrosa grandeza que existem nas coisas pequenas e no culto à forma. E é exatamente isso que consigo enxergar na Mulher: forma inalcançável, beleza incondicional e riqueza em todo e qualquer detalhe. Sem dúvida, a Mulher é o ser mais perfeito que a natureza já viu…

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#MarçodeIgualdade

Março de Igualdade 29 | 31 – A maternidade

29 março, 2016
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A gravidez é um momento único na vida de cada mulher, repleta de sentimentos de angústia, medo e felicidade. A gravidez representa fertilidade o que a torna de “mulher filha” para “mulher mãe”. O nascimento de um filho é um momento de grandes transições na vida de uma mulher, principalmente na sociedade atual onde o papel da mulher tem sido ressignificado.

A mulher atual além da função materna de reprodução e cuidados com os filhos, possui objetivos profissionais e pessoais, quer sua independência econômica, se preocupa com o seu crescimento profissional, quer sentir prazer nas suas relações afetivas e quer estar bonita e jovem, precisando assim dividir o seu tempo entre estas atividades e ainda lidar com a pressão social repleta de padrões do que é ser uma boa mulher e uma mãe exemplar.

Segundo o filosofo francês Gilles Lipovetsky auto do livro – A terceira Mulher, “a dinâmica pós-moderna da emancipação feminina não significa homogeneização dos papéis dos dois gêneros, mas persistência no papel prioritário da mulher na esfera doméstica, combinando com as novas exigências de autonomia individual”, ou seja, trabalhar fora de casa, ser uma profissional bem sucedida é somar responsabilidades, mais do que isto é frequentemente, suportar uma certa medida de conflitos e culpa.

Por conta destes anseios e outros motivos muitas mulheres optam por não ter filhos e são julgadas pela nossa sociedade como mulheres inferiores, afinal de contas não usufruíram de sua feminilidade na sua totalidade, são vistas com mulheres sem coração incapazes de desenvolver o dom do cuidado e ainda precisam conviver com eternas perguntas do por que optaram por não ser mãe.

Como mãe, jamais mais me vejo em outra se não nesta posição, mais estaria sendo injusta se limitasse o ser Mulher apenas a maternidade, afinal gerar um filho e cuidar deste é apenas parte do que sou como Mulher e não um todo. E o fato de ser mãe ou não ser mãe não limita a minha feminilidade exercida tanto para mim, quanto para a sociedade.

Também é necessário falarmos mais do que é exercer a maternidade na sociedade atual, de como ressignificar “obrigações” impostas somente às mulheres, como cuidado com a casa e educação dos filhos. Afinal, nos tempos atuais, tanto o homem quanto a mulher tem responsabilidades fora de casa a partir disso para uma maternidade mais leve é necessário redistribuir atividades intra-familiares. Certamente o verbo maternar e paternar se completam e formam famílias mais saudáveis e livres do conceito opressor que é o machismo.

Finalizo este texto, pedindo para que nós mães tenhamos mais empatia umas pelas outras, criticando menos a maternidade uma da outra. Acredito na importância de compartilhar nossas experiências, mas não as colocando como absoluta verdade. Acredito que o conceito de Sororidade, que falei aqui se encaixa perfeitamente como um valor da Maternidade, que possamos nos tratar como irmãs e não como concorrentes de quem tem o filho mais lindo e mais inteligente, afinal de contas já temos muito a fazer e ressignificar a partir da maternidade.

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Março de Igualdade 28 | 31 – Mulheres encarceradas

28 março, 2016
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Por Geralda Ávila

O encarceramento de mulheres no Brasil é alarmante e cresce de forma exponencial. Entre os anos 2000 a 2014, o número de mulheres encarceradas aumentou inacreditáveis 567,4% registrando em junho de 2014 uma população de 37.380 mulheres reclusas. Comparativamente, no mesmo período, a média do encarceramento masculino cresceu 220,20% registrando uma população carcerária de 542.401 homens.

Lançado em 2015, os dados são do INFOPEN Mulheres – Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias – que pela primeira vez disponibilizou dados penitenciários por gênero. Estes dados são relevantes para dar visibilidade a essa parcela da população e desenvolver políticas públicas voltadas à superação dos problemas.

Em geral as mulheres submetidas ao cárcere são jovens, mulheres correspondem a 8% do total da população carcerária; 80% delas tem filhos e são as responsáveis por prover o sustento da família; possuem baixa escolaridade; pertencem a extratos sociais desfavorecidos economicamente; exerciam atividade de trabalho informal no período anterior à prisão; o aumento do aprisionamento feminino não se circunscreve a delitos violentos; o aumento da taxa de mulheres presas se dá em razão de entorpecentes, sendo que a maioria envolve pouca quantidade de droga e 65% dessas mulheres estão cumprindo penas por delitos relativos às drogas, o que proporcionalmente representa três vezes mais que o número de homens detidos pelo mesmo delito, sendo que as mulheres ocupam um papel coadjuvante no tráfico, estão na ponta da ponta da ponta da venda, representam a vidraça o que as tornam extremamente vulneráveis.

O extraordinário aumento da população de mulheres em privação de liberdade reflete a política de encarceramento em massa camuflada de política punitiva de segurança made in USA, exportado para países europeus e copiado por países da América Latina. Essa política, nas palavras do sociólogo Loic Wacquant, consiste em (r)estabelecer uma verdadeira ditadura sobre os pobres, contrariando a consolidação de uma sociedade democrática.

Cada país, com suas peculiaridades, buscam apoio nas instituições policial e penitenciária, a fim de conter as desordens geradas pelo desemprego, pela imposição do trabalho assalariado precário, pelo vácuo da proteção social do Estado. Notadamente na América Latina ao importar essas políticas e as técnicas agressivas de segurança, os políticos anseiam por uma solução mágica para o crucial problema da violência criminal.

Na esteira da “guerra às drogas” Martin Jelsma, cientista político holandês, especializado em políticas internacionais de controle de drogas, lançou em 2009 um relatório de Inovações Legislativas em Política de Drogas:

“Este relatório apresenta um resumo das boas práticas nas reformas legislativas em políticas sobre drogas em todo o mundo, que representam um afastamento do modelo repressivo de tolerância zero e um avanço em direção a uma política de drogas mais humana e baseada em evidências empíricas. Os exemplos refletem as lições aprendidas na prática com as abordagens menos punitivas e seu impacto sobre os níveis de consumo de drogas e os danos associados sobre o indivíduo e a sociedade. As evidências sugerem que a legislação que reduz a criminalização, acompanhada de medidas que favoreçam o deslocamento de recursos alocados em atividades de repressão e encarceramento para a prevenção, tratamento e redução de danos, é mais efetiva na redução dos problemas relacionados às drogas. Os temores de que o relaxamento das leis antidrogas e sua aplicação se traduziriam por um drástico aumento do consumo de droga provaram ser infundados. Os exemplos podem ser considerados como avanços em relação a um modelo excessivamente repressivo de controle de drogas e apontam para uma direção de reformas e mudanças de paradigma mais significativas no futuro.”

No Brasil, o aprisionamento de mulheres se apresenta de modo perverso considerando a matriz histórica da cultura patriarcal que versa o funcionamento do sistema penal no país e dita regras de conduta em que “uma mulher não deve vacilar”. O reflexo dessa “norma” é explícito em dias de visita nos presídios femininos, quando observamos o número minguado de visitantes. Maridos e/ou companheiros no mais das vezes desaparecem, filhos raramente visitam, a figura do pai não é notada e até mesmo a mãe não admite que a filha tenha caído naquela situação. É comum ouvir das mulheres presas: -“eu peço para minha família, principalmente meus filhos não virem me visitar, para não passarem por humilhação”…essa afirmação pode ser verdadeira porque são grandes os constrangimentos a que são submetidas os familiares da presa, isto porque na visão de alguns agentes penitenciários e de grande parte da sociedade, parente de bandido, bandido é. Mas, numa conversa mais próxima, essas mesmas mulheres confessam que foram abandonadas ao ingressarem na prisão, ou seja, as mulheres são condenadas em muitas instâncias: pela vida, pela “justiça”, pela sociedade, pela família, gerando um círculo de violência e abandono que se reproduz ao longo de toda vivência, para além muros, permeando o cotidiano das egressas do sistema prisional e muitas vezes esse histórico violento passa para outras gerações.

A situação tende a ficar ainda mais grave quando trata de mulheres grávidas, mulheres que na ocasião da prisão estavam em estado adiantado de gestação, isto  porque não há estrutura para atender as demandas femininas, não há atendimento adequado para gestantes e bebês. Quando eu soube que Zenaide* fora presa em flagrante estando no oitavo mês de gestação, perguntei a ela – Você foi levada à presença do juiz? E ele não viu que você estava grávida? E ela me respondeu: – Não viu não, ele não olhou pra mim.

Os relatos são todos muito parecidos denotando o tratamento hostil dado as mulheres pelos operadores da justiça, hostilidade essa que é reproduzida dentro do sistema prisional.

E, se o Estado persiste em manter dentro do sistema penitenciário precário uma mulher grávida ou com bebês, tem o dever de fornecer condições adequadas para tal.

A permanência das crianças junto às mães é outra questão polêmica que, por um lado alivia para a mãe, de certa forma a penosa trajetória do cumprimento da pena, por outro lado gera dor e sofrimento ao ver o bebê naquele ambiente hostil, fato este que torna imprevisível avaliar as consequências para o futuro dessa criança.

O mesmo quadro de degradação se apresenta quando a mulher presa é idosa e/ou doente, pois para todos os males são oferecidos medicamentos simples e restritos. Inúmeros são os casos de mulheres acometidas de doenças respiratórias, cardiovasculares, hérnias em estado avançado, hipertensão, diabetes, criptococose  que é transmitida pelo pombo, soropositivo, cânceres, doenças mentais, todas convivendo no mesmo ambiente sem observância da especificidade de cada doença.

Não posso deixar de registrar dois casos que acompanhei. O caso da Roseli* que cumprindo pena em regime semiaberto, havia sido transferida recentemente do hospital de custódia de Franco da Rocha, era esquizofrênica e tomava medicamento controlado, duas companheiras de cela a cuidavam, porém em um dos surtos que teve cometeu suicídio por enforcamento. Outro caso mais recente, Vera* que trabalhava numa das empresas instalada na unidade, se queixou de fortes dores de cabeça e foi tratada com dipirona, a dor acentuou e o mesmo medicamento foi oferecido, até que sofreu um AVC e está hoje em cima de uma cama com seguelas que a tornara incapacitada para qualquer atividade cotidiana.

Há muitas alternativas para o encarceramento feminino, aponta Kenarik Boujikian, desembargadora do TJSP. Documentos nacionais indicam a necessidade de que se estabeleçam políticas públicas diferenciadas para as mulheres encarceradas e é urgente que o Estado Brasileiro realize ações efetivas de inclusão da mulher presa, buscando o equilíbrio, sanando a desigualdade histórica, focando as especificidades de gênero.

 

*Os nomes das mulheres são fictícios.

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Referências:

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Março de Igualdade 27 | 31 – Aborto

27 março, 2016
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Por Rose Santiago

“Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome.” Principalmente fome de amor, fome de vida.

Estão querendo acabar com a vida, antes mesmo dela ter tido a chance de fazer diferença no mundo.

Sou diretora do Cervi – Centro de Reestruturação para a Vida há quase oito anos (desde a sua fundação). É a única instituição na América Latina que oferece assistência integral à mulher que passa por uma gravidez inesperada, valorizando a opção pela vida. Recebemos aqui todos os dias, mulheres que se vêem sem saída com sua gravidez e que, a princípio, a única opção seria o aborto. Entretanto, ao serem acompanhadas, abraçadas (às vezes não só a mãe, mas o casal) e alertadas sobre a possibilidade da vida e os riscos do aborto, optam por deixar a semente da vida florescer.

Desde 1991, tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei (PL) n°1.135/91, que legaliza o aborto no Brasil. Na verdade, este projeto vem revogar os artigos 124,125,127,128 do Código Penal que criminalizam o aborto. O que tudo isto quer dizer? Que desde 1991, a proposta da legalização do aborto feita por um deputado federal, está em Brasília para ser aprovado e caso isto aconteça, os artigos que dizem que o aborto no Brasil é crime, deixaram de ter legalidade, ou seja, deixam de ter proibição e passa a ser algo “normal”. Como esta proposta não designa tempo, vai um pouco mais além, deixando livre a opção pelo aborto até, se for o caso, o nono mês de gestação.

Em meio a este turbilhão de leis e questionamentos, trata-se de vidas e não simplesmente de pontos de vista. Vida não apenas do feto que foi deixado de lado, mas da mãe que fez esta opção e deixou ir com ela a consciência livre, a saúde física e emocional.

Acompanhamos aqui no Cervi muitas mulheres que já fizeram aborto e hoje carregam a culpa e todas as conseqüências que ele traz. Nossa preocupação maior é qualidade de vida emocional e física que subsiste para a mulher (e seu parceiro, o emocional também se abala) e a acompanha em todos os momentos. Independentemente de ser legal ou clandestino, o que vai na mente humana é algo intransponível e que nenhum outro ser consegue aliviar ou tirar, por mais poder de convencimento que se tenha.

É exatamente por ver e caminhar com estas e muitas outras mulheres que optaram pela vida, que o Cervi trabalha na prevenção, para evitar chegar nesta polêmica.

 

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Março de Igualdade 26 | 31 – Mulher e o feminismo

26 março, 2016
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Por Glória Branco

Na Nigéria do século XIX, era comum na cultura Igbo que meninas recém-saídas da infância se casassem com homens que não amavam e sequer conheciam. Para evitar esse destino, as jovens precisavam contar com a sorte de ter uma família que não se curvava a essa cultura ou com a coragem de enfrentar uma sociedade sexista para viver seus próprios sonhos.

A palavra “feminista”, como a própria ideia de feminismo, é limitada por estereótipos. Comumente se diz que as feministas são mulheres infelizes, que não conseguem arranjar marido, que odeiam os homens, que odeiam sutiã, que não se depila, não se pinta, não tem senso de humor e não usa desodorante.

Porém feminismo não é o contrario de machismo, não é a ideia de que mulheres são melhores que os homens, também não é um movimento pelo fim da família e das religiões. Feminismo é, na verdade, uma ideia bem simples: a de que homens e mulheres têm dignidade igual e merecem direitos equivalentes. Quer dizer, ser mulher e não ser feminista seria um contrassenso sem tamanho.

O que é importante quando falamos de feminismo é compreender que existem várias correntes com as quais cada mulher pode se identificar ou não. Existe a corrente intersecional, que acha que a realidade das mulheres deve ser analisada e transformada considerando vários fatores da vida de cada uma, como cor, classe social, orientação sexual, entre outros. Também existe o feminismo liberal, que é contra cotas e outras políticas de incentivo e acredita que as mulheres, individualmente, podem conquistar seus espaços. Tem ainda o feminismo radical, que luta contra todas as estruturas que estão aí – contra a forma tradicional de família, por exemplo.  As radicais são muito comprometidas com a luta contra a violência sexual e de gênero.

Portanto é sábio estudar sobre o movimento e entender que ele está diretamente ligado as conquistas das mulheres nos últimos anos. Porque, vamos combinar, nenhuma pessoa com conhecimento mínimo de história pode negar que as mulheres foram e são oprimidas. A narração do começo deste artigo ilustra bem isso. Se quiser mais, imagine que até o ano passado as mulheres não podiam votar na Arábia Saudita!

O debate primordial é para construir uma sociedade em que as mulheres são mais felizes e para isso não existem questionamentos proibidos nem perguntas ofensivas. Feminista é, na verdade, a mulher ou o homem que diz: “Sim, existe um problema de gênero ainda hoje e temos que resolvê-lo, temos que melhorar”.

Se desafie a pesquisar mais sobre o feminismo e identificar com qual corrente você melhor se encaixa, e vá a luta pelos seus direitos e de todos porque todos nós, homens e mulheres, precisamos nos tornar seres humanos melhores.

março-de-igualdade-26

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Março de Igualdade 25 | 31 – Sororidade

25 março, 2016
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Sororidade é a aliança feminista entre mulheres. A palavra sororidade não existe na língua portuguesa, entretanto, uma palavra muito semelhante seria fraternidade que é descrita no dicionário como: 1 Solidariedade de irmãos. 2 Harmonia entre os homens. Ambas as palavras vem do latim, sendo sóror irmãs e frater irmãos. No entanto, na nossa linguagem usual, ficamos apenas com a versão masculina do termo, por conta da nossa sociedade patriarcal que dita que relações harmoniosas são possíveis apenas entre os homens.

Sororidade é uma dimensão ética, política e prática do feminismo contemporâneo. É uma experiência entre mulheres na busca por relações positivas e saudáveis, na construção de uma aliança existencial que visa e pode contribuir com a eliminação social de todas as formas de opressão às Mulheres, fortalecendo o conceito de que “Juntas somos mais fortes”. A sororidade é a consciência crítica sobre os valores sociais misóginos e é o esforço tanto pessoal, quanto coletivo de destruir a mentalidade e a cultura preconceituosa, enquanto transforma as relações de solidariedade entre as mulheres.

Como a misoginia está baseada e enraizada no machismo, ao desmonta-la afetamos a percepção do “homem” como centro da sociedade, que através do empoderamento feminino perdem o seu valor. O conceito de que o “homem” é melhor ou maior que a mulher desaparece quando a visão de mundo deixa de ser antropocêntrica e cada mulher passa a ver o mundo a partir de si mesmo e de seu gênero, recusando assim a supremacia machista.

A identificação entre mulheres como semelhantes aumenta conforme maiores são as coincidências de condições de idade, geração, sexualidade, classe social, etnia, formação cultural, ideologia, atuação política, religiosidade, nacionalidade, etc. Semelhanças entre essas condições facilitam a identificação de forma positiva entre mulheres por pertencerem e por se identificarem com o gênero feminino. A sororidade possibilita propagar a igualdade de gênero através de mecanismos de defesa à agressões e à qualquer forma de violência.

Os mecanismos patriarcais fazem com que essas mulheres tenham a esperança de serem eleitas e assim conquistarem poder. Elas competem entre si com a falsa esperança de serem eleitas entre “as outras”, ocupar posições, formando muitas vezes alianças com os homens, fomentando uma escala hierárquica entre si. Cada mulher se compara competitivamente com a outra e se coloca como superior ou inferior em um eixo hierárquico de dominação e opressão, inferioridade e superioridade, mediado pelas escalas classistas.

É imprescindível ter a consciência de que as mulheres são utilizadas para reproduzir a opressão de gênero entre elas, aniquilando assim o valor feminino individual e coletivo. A política patriarcal usa as próprias mulheres para prejudicar outras mulheres, prometendo a elas a aceitação, a valorização e a ascensão. Para combater a crueldade e o equívoco da inimizade, o feminismo precisa fortalecer e promover a sororidade, eliminar a misoginia pessoal e coletiva, não reproduzir formas de opressão entre mulheres como a discriminação, a violência e a exploração.

As redes genealógicas de apoio entre mulheres têm se consolidado principalmente entre parentes, companheiras e amigas. Se remontam a várias gerações de parentesco entre mulheres e também de movimentos feministas do passado. As mulheres não teriam sobrevivido em condições tão opressivas se não tivessem contado com esses apoios vitais. O que seria de nós mulheres sem nossas mães, filhas, avós? O que seria de nós sem nossas companheiras e amigas? O que seria de nós sem nossas ancestrais?

A sororidade é um princípio de relação entre todas as mulheres e um recurso para enfrentar os conflitos que podem surgir entre elas, eliminando a misoginia. Ela possibilita estabelecer vínculos entre civis e governantes, militantes de partidos, sindicatos, indígenas e mulheres de outras culturas, jovens e idosas, assim como camponesas, operárias, urbanas, heterossexuais e lésbicas, intelectuais e mulheres com baixa escolaridade, entre dirigentes e mulheres “de base”, teóricas e ativistas. Ao não tratar as diferenças de forma preconceituosa, convertendo-as em empatia entre as mulheres. É preciso superar a exigência de sermos idênticas.

A sororidade busca e, ao mesmo tempo já é, a concretude de formas de empoderamento das mulheres. Plantar relações de sororidade significa a vontade de apoiar para empoderar. Por isso, a sororidade pode dar-se entre desconhecidas, parentes, colegas, companheiras e amigas. Não é preciso ser amiga para vincular-se de forma solidária. Mesmo entre aquelas mulheres que têm conflitos pode-se viver em sororidade. Sendo assim, nenhuma tratará de excluir, destruir ou causar dano à outra.

O sentido da sororidade é propiciar melhores condições de vida para as mulheres e derrubar muros patriarcais. A prática feminista da sororidade permite às mulheres serem coerentes, potencializando assim a cultura de igualdade.

 

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Março de Igualdade 24 | 31 – Mulheres da terceira idade

24 março, 2016
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Por Marcia Neder

A PODEROSA NOVA MULHER MADURA

Sim, há uma geração diferente chegando aos 60 e reescrevendo o modelo de envelhecimento estereotipado e tradicional, aquele que é representado na plaquinha do idoso curvado, frágil e dependente.

Nesse grupo ativo e autônomo, destacam-se as mulheres que protagonizaram a Revolução Feminina no século passado, tomaram a pílula e ficaram donas do próprio corpo. Entraram no mercado de trabalho, ganharam o próprio dinheiro e ficaram independentes.

 

Como elas poderiam agora envelhecer como suas mães e avós?

A geração das baby boomers, aquela nascida no pós-guerra entre 1946 e 1964, época em que a expectativa de vida não alcançava os 60, chega à maturidade em meio a uma veloz transformação demográfica que nos traz mais 20/30 anos. Nesse Brasil que passa de um país jovem para um país maduro, as mulheres já vivem quase oito anos a mais que os homens e serão chave dessa mudança gigantesca. Mais uma vez elas estão rompendo os limites do seu tempo.

 

Como serão esses 20/30 anos a mais? Muito bons.

Maturidade não é mais o começo do fim. Há uma nova Revolução Feminina em curso que, apesar de silenciosa, é tão transformadora quanto a primeira. As mulheres dessa geração chegam aos 60 ativíssimas, produtivas, independentes, autônomas, bonitas, saudáveis, formadoras de opinião, empreendedoras e líderes em suas áreas de atuação. Cheias de planos, inovam, ultrapassam limites e transformam a própria vida, criando um novo sentido para a idade.

 

Quando eu tinha a idade da minha filha, que tem 25 anos, alguém que tinha 60 era um velho. Hoje, a minha filha não tem essa visão porque ela está convivendo com uma pessoa que não representa esse estereótipo. O significado dos 60 anos na Sociedade Industrial do século passado, em que o corpo jovem era o capital, é completamente diferente do sentido dos 60 na nova Sociedade do Conhecimento do século 21, em que a mente é o capital. A idade, portanto, ganha importância nesse novo contexto porque é sinônimo de experiência e sabedoria. Sabe aquela frase que a gente sempre escuta de que os 50 são os novos 40, que os 60 são os novos 50? Nada mais ultrapassado. Não queremos ser mais jovens. Queremos um novo significado para a idade real.

Hoje, os 60 são os novos 60.

Essas novas mulheres maduras e poderosas são aspiracionais para a geração do milênio. Pela primeira vez, uma geração mais nova está olhando para uma mais velha, sempre foi o contrário. Os baby boomers vão colocar o velho no seu devido lugar. Quer ver como?

Elas são curiosas, gregárias e solidárias, sempre somam. São menos auto-centradas e mais generosas. Têm uma capacidade muito maior de olhar para as necessidades dos outros e trabalhar por inclusão. Querem  contribuir, partilhar, distribuir.

São produtivas, têm múltiplos interesses e estão sempre aprendendo algo novo. Estudam, fazem planos e projetos. Querem empreender, criar, deixar um legado.

Estão plugadas na internet, têm uma vida social e cultural intensa e um grupo de amigos que são como uma família. Querem viajar, se conectar, experimentar, saborear a vida.

São vaidosas, bem cuidadas, seguras de si, em paz com as imperfeições. Muito rigorosas com a qualidade da alimentação e a rotina de exercícios. O maior investimento é na saúde física e mental. Querem expandir a consciência, a visão holística e a espiritualidade.

Juntam dinheiro, investem, mas bem pé no chão. Planejam com segurança uma velhice autônoma e confortável. São autoindulgentes e exigentes, priorizam qualidade em lugar de quantidade. Querem consumir menos e melhor.

Cultivam o otimismo, não olham para trás, não se lamentam, não têm medo do futuro nem da morte. São fortes, corajosas, intuitivas e coerentes. Estão abertas para o novo e levam a vida com paixão.

As fascinantes mulheres que pesquisei no meu livro “A Revolução das 7 Mulheres: os sete perfis que representam a geração 50+, 60+ que está reinventando a maturidade” já entenderam que são as protagonistas dessa nova história. Ao revolucionarem o curso da própria vida, criam um novo sentido para o envelhecimento e novos valores para a sociedade.

A velhice é um privilégio. Temos que fazer desse momento uma coisa muito boa. E está em nossas mãos.

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Texto – Marcia Neder é carioca e jornalista formada pela PUC. Atuou como repórter da Globo e, por três décadas, cobriu o universo das revistas femininas na Editora Abril, acompanhando a gigantesca transformação da condição da mulher no Brasil e no mundo, ocorrida na segunda metade do século 20. Dirigiu as revistas Nova e Claudia, e atuou como publisher de Elle, Estilo, Saúde, Boa Forma, Women’s Health, Bons Fluidos e Vida Simples. Durante todo esse tempo, aprendeu sobre força, resiliência, talento, paixão, desejos, sonhos e desafios que determinam o comportamento de tantas mulheres. Nesse primeiro livro, explorando o nicho da nova mulher madura, continua a fascinante viagem pela alma feminina em que teve a sorte de se especializar.

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Março de Igualdade 23 | 31 – Mulheres em situação de rua

23 março, 2016
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“A escola do morador de rua é o mundo, onde se vive as dores da vida.”

(W.A., moradora de albergue)

Por Thaís Milson

De acordo com o Decreto Federal nº 7.053/2009 (que institui a Política Nacional para a População em Situação de Rua), entende-se por população em situação de rua: o grupo populacional heterogêneo que compartilha da condição de pobreza extrema, vínculos familiares fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, procurando os logradouros públicos (ruas, praças, jardins, canteiros, marquises e baixios de viadutos), as áreas degradadas (dos prédios abandonados, ruínas, cemitérios e carcaças de veículos) como espaço de moradia e sustento, por contingência temporária ou de forma permanente, podendo utilizar albergues para pernoitar e abrigos, casas de acolhida temporária ou moradias provisórias (BRASIL, 2009).

Em São Paulo, de acordo com o Censo da População em situação de rua realizado em 2011, há aproximadamente 14.478 (quatorze mil quatrocentos e setenta e oito) indivíduos, sendo 6.765 (seis mil setecentos e sessenta e cinco) em situação de rua e 7.713 (sete mil setecentos e treze) em centros de acolhida da capital. Deste total, 12% são mulheres (cerca de mil seiscentos e oitenta mulheres das mais variadas faixas etárias).

Trazer a questão de gênero para essa discussão tem suas especificidades, pois estamos contextualizando uma forma diferente de sobreviver, porém, o papel feminino nas ruas, não se diferencia totalmente da realidade de muitas mulheres que estão inclusas na sociedade.

Nas intervenções que participei com a população de rua, tive a oportunidade de conhecer algumas mulheres, dentre elas contarei a história de Glória. Negra, com a idade por volta de 40 anos, era quase imperceptível, mas estava grávida de quatro meses. Viciada em crack e há dez anos vivendo na rua, transformou o entorno da estação da luz em seu lar. Com 1,75 de altura, aparentando pesar menos de 50 kilos, para sobreviver, Glória conta com o auxilio dos abrigos, entidades religiosas e esmolas.

Em nossos encontros, eram perceptíveis as marcas de violência física em seu corpo, quando questionei o que havia acontecido, Glória explicou que em uma das batidas policiais no local em que estava, acabou sofrendo agressão policial, prática habitual da policia, para dispersar a concentração de moradores de rua da região. Glória relatou a dificuldade de conviver nas ruas e a necessidade de proteção “na rua a gente tem que ficar esperta, se bobear roubam e batem na gente” palavras de Glória ao se referir sobre a relação com outros moradores de rua.  Seu companheiro, também morador de rua e coletor de recicláveis, é segundo ela, seu protetor e quem a ajuda no dia-a-dia.

Segundo TIENE (2004), as mulheres em situação de rua nunca estão sozinhas, procura conviver em grupos como forma de proteção, muitas procuram companheiros para se sentirem seguras, sendo muitas vezes submetidas sexualmente para garantir a segurança de outros. Viver na rua, para as mulheres é também construir essas relações necessárias ao seu cotidiano.

Glória, apesar da vulnerabilidade, do desamparo de direitos legais, preconceito, exposição à violência, fez das ruas o seu lar, o seu modo de vida, e no cotidiano, desenvolve formas especificas de sobrevivência, tornando a rua um espaço de referência, criando as suas próprias relações e a identificação com esse novo modo de vida, pois encontra pessoas nas mesmas condições de sobrevivência. É necessário removermos os preconceitos e nos aproximarmos mais dessas mulheres, conhecendo suas histórias, lógicas de sobrevivência, necessidades, esperanças, retirando a capa de invisibilidade que a sociedade insiste em manter ao marginalizá-las.

É necessário politicas públicas especificas para as mulheres em situação de rua, garantindo cuidados diferenciados. Pensar em uma política social para essas mulheres, vai além de  construir abrigos/albergues, mas sim locais que produzam a oportunidade de ter melhor qualidade de vida.

 

Público do Estado de Minas Gerais –MPMG. Cartilha Direita do Morador de Rua Ministério, 2010.

TIENE, Isalene. Mulher moradora na rua: espaços e vivências. Mestrado, Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social, PUC-SP, 2000.

 

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#MarçodeIgualdade

Março de Igualdade 22 | 31 – Suicídio

22 março, 2016
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A palavra suicídio foi utilizada pela primeira vez por Desfontaines, em 1737 e significa morte intencional auto-inflingida, isto é, quando a pessoa, por desejo de escapar de uma situação de sofrimento intenso, decide tirar sua própria vida.

De acordo com dados atuais da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 3.000 pessoas por dia cometem suicídio no mundo, o que significa que a cada 30 segundos uma pessoa se mata. Estima-se que para cada pessoa que consegue se suicidar, 20 ou mais tentam sem sucesso e que a maioria dos mais de 1,1 milhão de suicídios a cada ano poderia ser prevista e evitada.

O suicídio é atualmente uma das três principais causas de morte entre os jovens e adultos de 15 a 34 anos, embora a maioria dos casos aconteça entre pessoas de mais de 60 anos. Ainda conforme informações da OMS, a média de suicídios aumentou 60% nos últimos 50 anos, em particular nos países em desenvolvimento. Cada suicídio ou tentativa provoca uma devastação emocional entre parentes e amigos, causando um impacto que pode perdurar por muitos anos.

Através da observação dos casos de suicídios, pode-se constatar que há certos fatores que estão relacionados a uma maior ou menor probabilidade de cometer o suicídio. Por exemplo, as mulheres tentam o suicídio 4 vezes mais que os homens. O suicídio é a segunda maior causa de morte entre mulheres de 15 a 29 anos na cidade de São Paulo. Em 2014 foram registrados 40 casos de suicídio de mulheres jovens. Esse tipo de morte ficou atrás apenas dos homicídios, que mataram 59 mulheres desta faixa etária.

Os dados são do Programa de Aprimoramento das Informações de Mortalidade (Pro-Aim), da Prefeitura de São Paulo, feitos com base em atestados de óbito, obtidos com exclusividade pelo G1.

O médico psiquiatra do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) Teng Chei Tung disse que o suicídio “está muito associado a quadros psiquiátricos, como depressão ou uso de drogas. Nas grandes cidades, a mulher tem mais chance de ter depressão, pois o estilo de vida urbano é sobrecarregado. A pressão é muito grande. A mulher tem de cuidar da casa, dos filhos e trabalhar. Isso tudo piora a condição de saúde mental.”

Para o médico, as mulheres costumam dar sinais. “É bem comum as mulheres comentarem que estão deprimidas ou que estão pensando em desistir com pessoas próximas. Isso pode ser um pedido de socorro.”

O psiquiatra José Manoel Bertolote, da Unesp, disse que o suicídio é um tabu não só no Brasil como em outros países. Ele trabalhou por 20 anos na Organização Mundial de Saúde (OMS), e ajudou a montar a cartilha mundial de prevenção ao suicídio.

Segundo ele, 85% das pessoas que cometem suicídio têm transtornos mentais que poderiam receber tratamento. Os mais frequentes são depressão, alcoolismo e esquizofrenia.

O psiquiatra considera que esse tipo de tratamento ainda é muito defasado no Sistema Único de Saúde (SUS). “A saúde mental é muito precária, e esses pacientes com esses casos não têm onde ser atendidos.” Segundo ele, uma consulta nos Centros de Atenção Psicossociais (Caps) demora para ser marcada, e “o tempo do suicida é agora”.

Que possamos estar atentos aos sinais e dispostos à ouvir as Mulheres que estão ao nosso redor, demonstração de afeto e compaixão pode fortalecer essas Mulheres que sentem-se sozinhas e cansadas mentalmente.

 

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Março de Igualdade 21 | 31 – Assédio sexual

21 março, 2016
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Mas o que é esse assédio? Todos os dias, mulheres são obrigadas a lidar com comentários de teor obsceno, olhares, intimidações, toques indesejados e importunações de teor sexual afins que se apresentam de várias formas e são entendidas pelo senso comum como elogios, brincadeiras ou características imutáveis da vida em sociedade (o famoso “é assim mesmo…”) quando, na verdade, nada disso é normal ou aceitável.

Para tentar entender melhor o assédio sexual em locais públicos, a Olga colocou no ar, em agosto, uma pesquisa elaborada pela jornalista Karin Hueck, como parte da campanha Chega de Fiu Fiu. Contamos com 7762 participantes e 99,6% delas afirmaram que já foram assediadas  – um número tão alto que já dá a ideia da gravidade do problema. Veja abaixo o resultado:

Onde você já recebeu cantadas? (era possível selecionar mais de uma opção)
Na rua  98%
No transporte público  64%
No trabalho  33%
Na balada  77%
Em lugares públicos: parques, shoppings, cinemas  80%

 

Você acha que ouvir cantada é algo legal?
Sim 17%
Não 83%

 

Você já deixou de fazer alguma coisa (ir a algum lugar, passar na frente de uma obra, sair a pé) com medo do assédio?
Sim 81%
Não 19%

 

Você já trocou de roupa pensando no lugar que você ia por medo de assédio?
Sim 90%
Não 10%

 

Você responde aos assédios que ouve na rua?
Sim 27%
Não 73%

 

Quais cantadas você já ouviu em espaços públicos?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Linda  84%
Gostosa  83%
Delícia  78%
Fiu fiu  73%
Princesa  71%
Nossa senhora  64%
Ô lá em casa  62%
Boneca 47%
Vem cá, vem  44%
Te pegava toda  36%
Te chupava toda  36%
Outros  4%

 

Se você já recebeu cantadas indiscretas no trabalho, de quem foi?  (era possível selecionar mais de uma opção)
De um superior  13%
De um colega  21%
De um cliente  14%
De um funcionário  9%

 

Você já foi assediada na balada?
Sim 86%
Não 14%

Já tentaram te agarrar na balada?
Sim 82%
Não 18%

Se sim, como?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Pelo braço 68%
Pelo cabelo 22%
Pela cintura 57%
Outros 4%

 

Já passaram a mão em você?
Sim 85%
Não 15%

Se sim, onde?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Peitos 17%
Bunda 73%
Cintura 46%
No meio das pernas 14%
Outros 4%

Você já foi xingada porque disse não às cantadas de alguém?
Sim 68%
Não 32%

 

Se sim, do quê?  (era possível selecionar mais de uma opção)
Metida 45%
Baranga 16%
Gorda 13%
Feia 23%
Mal-comida 25%
Outros 17%

Por favor, conte um episódio de cantada que ficou marcado na sua lembrança (alguns exemplos):

  • Um dia saí de casa para buscar fotos que eu havia mandado revelar. Era um dia frio e eu estava bastante agasalhada, nada estava amostra. E mesmo assim, por onde eu passava homens me observavam com olhares maliciosos, comentários baixos de desmerecimento e um deles até chegou a dizer “Ai, se essa buceta estivesse na minha cama”.
  • Em um bota fora da faculdade um menino tentou me agarrar fazendo uma chave de pescoço, enquanto dizia que eu era linda.
  • Em uma balada um menino passou a mão em minha bunda, por baixo da saia.
  • Eu tinha uns 11 anos. Era carnaval, as ruas cheias. Eu era uma criança. Lembro que estava de shorts não muito curto e uma camiseta. Um homem passou a mão em mim e acariciou meu cabelo dizendo: “Fooooofa” mostrando a língua depois.
  • Já estava perto de dobrar a esquina (da rua onde moro), à noite. Um cara vinha na direção contrária a minha. Quando chegou perto de mim, falou baixo: “Quer chupar meu pau?”. Pensei logo q seria estuprada, pq a esquina da minha rua é bem deserta e tal.
  • Eu estava voltando para casa, a pé. A rua estava praticamente vazia no ponto onde me encontrava e ao meu lado, uma motocicleta reduziu a velocidade. O motoqueiro ficou dizendo frases como “sobe aqui e eu te mostro como se trepa”, “meto em você todinha, delícia”. Fiquei constrangida e assustada, decidi ignorar o motoqueiro e ele foi embora sem que eu o olhasse. Tive medo de ser estuprada.
  • Eu tinha dez anos, estava andando de bicicleta e um cara, que veio andando de bicicleta, passou do meu lado e apalpou a minha bunda. Fui para casa chorando, corri falar com os meus pais chorando muito. Eu tinha me sentido invadida, mas não tinha entendido direito o que havia acontecido.
  • Andando na rua as 19 da noite em frente ao shopping Patio Savassi, eu, com 16 anos, ignorei um grupo de homens que me assediaram com palavras e levei um tapa com muita força na bunda. Chorei de dor e humilhação.
  • Ouvi um cara começar a me chamar de gostosa na rua e ignorei. De repente, o cara veio se chegando pro meu lado no ponto de ônibus, com o pau pra fora, batendo uma punheta pra mim, me chamando de gostosa. Entrei no primeiro ônibus que encostou, nem vi para onde ia, só pra fugir do safado. Quando cheguei em casa chorando, minha mãe perguntou o que tinha acontecido. Depois que contei, ela perguntou: “E o que você fez pra provocar o homem, ele não colocou o pau pra fora à toa”. Depois disso, nunca mais contei nenhum episódio de assédio, abuso ou qualquer outra coisa pessoal que aconteceu comigo.
  • Um cara de bicicleta invadiu a calçada na qual eu caminhava tranquilamente, à noite, e passou a mão nos meus seios.
  • Estava num show de rock e alguém enfiou o dedo na minha bunda. Eu tinha 15 anos. Parece até engraçado falar assim, mas foi traumático e doentio.
  • Andava a pé até a academia quando tinha 15 anos. Como, com o tempo, comecei a ficar muito incomodada com as cantadas, olhares, motoqueiros buzinando, acabei decidindo que ia colocar uma calça moletom e camiseta por cima da roupa de academia. Com isso, as cantadas imediatamente pararam, mas eu passava muito calor com 2 roupas, andando na rua em dias de sol.
  • Uma vez um sujeito masturbou-se ao meu lado no ônibus. Fiquei tão em choque que só tive a reação de sair do local desesperada. Não consegui gritar, nem fazer um escândalo.
  •  Era nova, mais ou menos 16 anos, estava passando por uma rua sozinha e me deparei com um grupo de homens torcedores de algum time que não me lembro (estava num bairro próximo a um estágio em Belo Horizonte, num dia de jogo). Eles começaram a me “cantar”, de repente estão passando a mão em mim, pelo menos uns quatro homens me empurrando. E eu desesperada saí andando rápido, tentando me soltar. Foi desesperador… Senti um medo real de me estuprarem coletivamente.
  •  Estava andando despreocupada, com fones de ouvido. Eram 17 horas e a rua estava bem movimentada, inclusive com vário pedestres fazendo caminhada. Um homem de moto diminui a velocidade ao passar por mim e enfiou a mão no meio das minhas pernas, de uma forma totalmente brutal. Fiquei assustada e o xinguei. Demorei uma semana para esquecer a sensação daquela mão no meio das minhas pernas.

Nós mulheres precisamos acreditar e lutar por um futuro no qual ninguém se sinta no direito de discriminar o diferente em espaços onde todos têm o direito de estar. Mais que o fim do fiu fiu, desejamos um mundo no qual todos tenham a possibilidade de alcançar seu potencial máximo independente de quem seja ou onde esteja. Somos um movimento pela equidade pública: esse é o futuro da luta contra o assédio no mundo.

 

Fonte e pesquisa completa: Think Olga

 

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